Afinal não dá para fazer pipocas com o telemóvel…

Os jovens portugueses recebem o primeiro telemóvel aos 10 anos, enviam perto de 100 sms e falam mais de 30 minutos por dia. As conclusões são de um estudo realizado pelo Instituto Superior Técnico (IST), no âmbito do projeto monIT, que teve por base 2471 inquéritos respondidos em 40 estabelecimentos com ensino secundário, no ano letivo 2010/11. Ah… Também descobrimos que afinal isso dos telemóveis fazerem pipocas e cozerem ovos é pura imaginação.  

O estudo “Telemóveis e os jovens: utilização e preocupações “, mostra ainda que cerca de 21% dos alunos possuem dois ou mais aparelhos. Surpreendido? A mais Educativa também ficou, por isso decidiu entrevistar Luís Correia, professor do Departamento de Engenharia Electrotécnica e Computadores do IST e coordenador do referido estudo.

O projecto monIT procura disponibilizar publicamente informação sobre as radiações eletromagnéticas em comunicações móveis, sobretudo junto dos mais jovens, certo?

A ideia do projeto, que já tem 10 anos, foi sermos nós da universidade – porque as pessoas ainda acreditam em nós, por não termos propriamente interesses comerciais ou empresariais – a informar as pessoas sobre isto das radiações eletromagnéticas, porque diz-se muita coisa incorreta que não é matéria de opinião, tem antes que ver com as leis da Física e não tem propriamente a ver com se as pessoas concordam ou discordam…

Estamos a falar daqueles mitos espalhados na internet?

Sim, há dois muito conhecidos que circulam no youtube, um deles é cozer um ovo com dois telemóveis, por exemplo. Ora… Isto é impossível. Quanto tempo demora cozer um ovo? 5 minutos? E a água fica a ferver, não fica? Por isso não metemos lá o dedo… Ora nós não nos queimamos com um telemóvel, o que significa que a temperatura do telemóvel está muito aquém da temperatura com que se coze um ovo, o que significa que cozer um ovo com o telemóvel é impossível, porque a temperatura que o telemóvel atinge é tão baixa, tão baixa que nunca poderá cozer um ovo. Depois há o das pipocas: estão quatro telemóveis e mal os telemóveis apitam, o milho faz pipocas. Ora, se fizermos pipocas num forno micro-ondas isso demora dois minutos e o forno micro-ondas é uma caixa fechada onde a radiação está concentrada… E tem uma potência que é no mínimo mil vezes superior às dos telefones. Agora imagine quatro telemóveis a radiar a uma potência muito mais baixa, isso não pode fazer pipocas. Por isso é que o nosso objetivo é informar as pessoas para que as pessoas comecem a perceber como é que os mecanismos funcionam, separando o trigo do joio, como se costuma dizer.

Também se fala no telemóvel que radia enquanto dormimos…

Uma grande preocupação das pessoas é não deixar o telemóvel na mesinha de cabeceira, porque se diz que “faz cancro”, mas um telemóvel à mesinha de cabeceira radia tanto como a almofada, ou seja zero, porque um telemóvel só radia enquanto estamos a falar. O que significa que o receio de não ter o telemóvel ao pé durante a noite é completamente desnecessário, já que radia o mesmo que a própria mesinha de cabeceira e a almofada.

O monIT está, por isso, em estreita relação com as escolas para esclarecer os alunos sobre estas questões…

Todos os anos, no início do ano letivo, enviamos uma carta às escolas do ensino secundário públicas e privadas a dizer que estamos disponíveis a ir lá fazer palestras sobre isto. Depois as escolas, muitas delas, falam connosco para pedir a calendarização. O que nós fazemos nas palestras é explicar como é que os sistemas de telecomunicação e os telemóveis funcionam, para eles perceberem que não podem cozer os ovos ou fazer pipocas… Nas escolas que nos querem acolher também fazemos as medidas de radiação e os resultados dessas medidas vão depois para o portal do projeto na internet.

Sobre este estudo, houve alguma surpresa por altura do tratamento final dos dados recolhidos?

Nós sabíamos que a malta nova recebe muitos sms, daí que não houvesse surpresa nesse ponto de vista – mais do que quantos, já sabíamos que eles enviavam muitos. A grande novidade que tivemos, no que diz respeito à utilização de telemóveis, foi haver uma percentagem de 20% que têm dois telemóveis. Foi novidade porquê? Porque as pessoas que têm dois telemóveis são um para fins profissionais e outro para fins familiares. Como os alunos de ensino secundário não têm atividade profissional, à partida não haveria nenhuma razão para eles terem dois telemóveis. Não tínhamos pensado nisso…

As raparigas falam mais ao telemóvel do que os rapazes… Há alguma explicação para isto?

O facto de as raparigas falarem mais do que os rapazes (porque nos sms os números são mais ou menos iguais), tem a ver essencialmente com hábitos culturais, digamos assim… Porque eu não sou sociólogo. De um modo natural, acredito que as raparigas falam mais entre si do que os rapazes e isso reflete-se na utilização do telemóvel.

Coleção de telemóveis do professor Luís Correia.

Esta é a coleção de telemóveis do professor Luís Correia... Com vista privilegiada e tudo!

Quais são os aparelhos mais presentes na vida dos jovens de hoje em dia?

Há muitos dispositivos presentes no nosso dia-a-dia que não radiam e com os quais as pessoas estão preocupadas, como a televisão e o rádio, por exemplo, quando aquilo não radia, não tem nada que radiar… Apenas são recetores, recebem ondas eletromagnéticas, o que é completamente diferente. A diferença para o telemóvel é que o telemóvel além de recetor é emissor – se não funcionava como um rádio: a gente só ouvia, mas não podia falar. Há que fazer esta distinção… Equipamentos que radiem no dia-a-dia das pessoas há o telemóvel, o micro-ondas (cuja maioria da radiação está lá dentro), um telefone sem fios (porque como é sem fios tem de radiar para funcionar), um comando de TV (mas as potências são baixíssimas), a Wi Fi e agora os tablets, porque normalmente têm Wi Fi e alguns inclusivamente vêm com 3G. A questão fundamental é que são potências muito baixinhas e é isso que as pessoas têm de perceber.

Elas dão mais à língua
O estudo verificou que as raparigas fazem uma utilização mais intensa do telemóvel, sobretudo em chamadas, falando, em média, mais 22% do que os rapazes.

Primeiro telemóvel é aos 10 anos
A maioria dos jovens (29%) declarou que recebeu o primeiro telemóvel aos 10 anos, à entrada para o 2º ciclo do ensino básico.

Radiações à flor da pele
Mais de 50% dos jovens indicaram preocupar-se com os possíveis efeitos das radiações, mas apenas 20% já procuraram informação sobre o tema.

Para saberes o que mais descobriu a equipa do monIT, consulta o estudo na sua totalidade, disponível em Pdf.

[Foto: Samuel Alves]

 

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