Sabias que muito antes dos brasileiros, os egípcios já usavam ‘havaianas’? E que o nome do chefe dos lusitanos, Viriato, mais não foi do que um nickname derivado às vírias (espécie de pulseiras) que usava no braço? E que existe em Portugal uma múmia que sofria de cancro da próstata? Isto e muito mais está disponível em várias enciclopédias e livros de História – mas também numa única visita ao Museu Nacional de Arqueologia (MNA), que o diga Mário Antas, um arqueólogo (e muitas mais coisas) de profissão, mas sobretudo de paixão.
Como é que veio parar à Arqueologia?
A vida dá muitas voltas… E eu nem me sei bem definir a nível profissional: neste momento sou Técnico Superior no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), tendo funções relacionadas com a Educação, Comunicação e Divulgação de vários projetos. A nível de formação, tenho uma Licenciatura em História (fui mesmo professor de História muito tempo), uma série de Pós-Graduações, um Mestrado e, neste momento, estou a acabar o Doutoramento na área de Museus – o meu percurso é, portanto, completamente transversal.
O que é que mais gosta na sua profissão?
Sou apaixonado por aquilo que faço. O facto de trabalhar num museu para mim é uma grande vantagem, pois faço escavações arqueológicas, mas faço, sobretudo, um trabalho ligado à Comunicação e à Educação. O que eu mais gosto é conceber projetos e pô-los na prática, como é o caso da Rede de Clubes de Arqueologia nas Escolas Portuguesas, projeto que consiste em criar uma plataforma online para que as escolas possam ir buscar os recursos didáticos relacionados com a Arqueologia, contactar com os alunos e também divulgar a Arqueologia, promovendo a partir das coleções do MNA, pequenas exposições nas escolas. Acreditamos que neste trabalho de divulgação patrimonial é que conseguimos aproximar os mais novos do próprio património, porque aquilo que é a herança de todos nós, e se não for preservada, perde-se para sempre. O nosso objetivo é mostrar aos nossos filhos e mais tarde aos nossos netos que o território a que hoje chamamos Portugal já foi habitado por muitos povos e tem uma História riquíssima e o MNA conta essa mesma História: desde o aparecimento do Homem, no Paleolítico, até à fundação da nacionalidade, a formação do Reino de Portugal.

Retrato de mulher (Herma bifronte) exposta no MNA, Séc. I-II d.C., Milreu, Faro.
Depois de ter sido professor de História, volta agora a ter contacto com o público no museu…
Agora continuo, de certa forma, a ser professor: sou educador, sou mediador educativo de Arqueologia. O MNA faz educação não formal e é fascinante olhar para os olhos dos alunos que chegam aqui e veem que afinal “isto é assim” e “a explicação é esta”. A educação não formal chega a ser mais fácil aqui, sobretudo com as atividades, as visitas guiadas, as histórias que contamos baseadas nas evidências arqueológicas e os ateliês que organizamos e em que eles aprendem fazendo. Os mais novos acabam por ter uma dimensão prática daquilo que aprendem na escola, sobretudo nos livros de História do 7º ano, que é onde é dada mais Arqueologia e História da Antiguidade, época mais conotada com Arqueologia.
Há cerca de três anos tive um momento realmente comovente: durante a festa da Noite dos Museus, no dia 18 de Maio, apareceu um senhor de 86 anos com as lágrimas a correrem pela cara abaixo, dirigiu-se a mim, porque foi a primeira pessoa que encontrou, deu os parabéns e disse que em toda a sua vida de 86 anos a viver no bairro de Belém, era a primeira vez que entrava num museu gratuitamente, porque ele achava um museu era uma espécie de caixa-forte de jóias, onde só as pessoas bem-vestidas podiam entrar. O dia em que uma pessoa entra pela primeira vez num museu, a minha missão, enquanto arqueólogo, educador, professor, museólogo e técnico do MNA, está cumprida na plenitude e eu sinto-me plenamente realizado.
Para todos os alunos e professores que vão ler esta entrevista, como podem as escolas pertencer à Rede de Clubes de Arqueologia?
Existe uma plataforma online alojada em www.clubesdearqueologia.org, onde basicamente o que é necessário é que na Escola exista um grupo de alunos e um professor interessados na Arqueologia. A partir daí, os alunos e o professor escolhem livremente o que querem trabalhar: podem querer saber mais sobre as Pirâmides do Egito, sobre Stonehenge, sobre a Arqueologia da sua zona… Na medida do possível, o MNA tenta arranjar material didático (livros, artefactos arqueológicos…) para dar o apoio. O projeto pretende desmistificar a imagem que o museu tem de ser um lugar onde se guardam as coisas e depois ninguém pode mexer. Aqui acontece exatamente o contrário: o museu vai à escola, através de exposições itinerantes, e os alunos podem tocar, sentir e cheirar e manusear, em alguns casos, as peças arqueológicas.
A propósito de desmistificar conceitos: afinal os arqueólogos não andam de chicote na mão nem explodem templos, como nos filmes, pois não?
Falar em explosões e tesouros é quase uma heresia para os arqueólogos. O Indiana Jones, por exemplo, é uma personagem fictícia que primeiro era professor na faculdade e depois se comporta como um verdadeiro saqueador de tesouros, é um mito. Mais recentemente, importada dos videojogos, na figura de Lara Croft, em “Tomb Raider”, há muita ação, mas não há uma contextualização, é a busca do artefato raro. Depois, um arqueólogo ao ver a “Múmia”, até fica com os cabelos em pé, porque está adulterada a mitologia egípcia, estão presentes elementos antagónicos… E sobretudo: um arqueólogo jamais é um caçador de tesouros, pelo contrário.
Um arqueólogo é alguém que procura vestígios do passado para compreender melhor a evolução humana e conseguir, como se fosse um detetive do passado, através dos vários elementos, reconstruir o passado. É por isso que para o arqueólogo, em situação de prospeção, sondagem ou propriamente escavação arqueológica, o mais importante não é o objeto em si, mas sim o contexto. Por isso ainda seguimos uma frase que acaba por ser imortal de Sir. Mortimer Wheeler “O arqueólogo não escava coisas, escava povos”, no sentido em que é através do contexto que o arqueólogo pode determinar o modo de vida das pessoas ou determinar os sítios arqueológicos.

Através do estudo “Lisbon Mummy Project”, foram feitas radiografias e TAC às três múmias egípcias presentes no MNA. Os exames de tomografia diagnosticaram a uma das múmias, com cerca de 2300 anos, um cancro na próstata. Nas outras duas foram descobertos problemas infeciosos em rótulas.
Tem alguma mensagem para todos aqueles que estão a pensar seguir Arqueologia?
Primeiro: apostem na formação. Eu fiz uma série de formações das quais não me arrependo e continuo a estudar. Com Bolonha, há uma multiplicidade de formações que podem fazer e quanto mais diversificada for a formação dos alunos melhor é, porque maiores hipóteses terão de arranjar emprego e de fazerem algo que venham a gostar. Segundo: sigam o vosso coração na medida do possível e comecem-no desde cedo. Existem vários programas, como o Ciência Viva nas férias – é um programa extremamente útil que dá possibilidade das pessoas irem para o terreno e trabalharem, e de virem para laboratórios de conservação e restauro ou de Arqueologia verem se é realmente isso que querem fazer.
A Arqueologia tem muitas facetas e eu aqui estou na Arqueologia de Museu, mas a maior parta dos arqueólogos trabalha em Arqueologia de contrato de acompanhamento de obras e aí as coisas são mais complicadas: não há obras, não há trabalho. O mercado é altamente exigente e o melhor é experimentarem primeiro as escavações arqueológicas, porque o trabalho de campo não é fácil. Uma coisa é ter o bichinho da Arqueologia e outra coisa é fazer Arqueologia, porque não é só escavar – é um trabalho metodológico, um trabalho científico que tem a ver com marcação de peças, cadernos de campo, desenho arqueológico, enfim…. Uma série de coisas que fazem parte da Arqueologia de laboratório que não se vê e que ocupa cerca de 90% do trabalho dos arqueólogos: inventariar e marcar peças, organizar e estudar coleções… Tudo isso é extremamente importante, mesmo sendo trabalho invisível do arqueólogo, e permite chegar a conclusões que não eram possíveis há 20 anos atrás.
A Arqueologia e as arqueociências estão em evolução e os estudos dos investigadores permitem a evolução da ciência arqueológica. Os verdadeiros arqueológos passam a vida a investigar, seja no campo, seja no museu, seja no laboratório e raramente são figuras públicas, a não ser quando exercem funções públicas.

Parte da exposição já está selecionada e catalogada... E pronta para viajar pelas escolas de todo o país.
Facas do Paleolítico brevemente perto ti!
Mário Antas teve a ideia, enquanto coordenador do Projeto Rede de Clubes de Arqueologia, e a restante equipa do MNA apoiou. “A ideia é, basicamente, pegar em artefactos e peças do museu verdadeiras e levá-las para as escolas. Escolhemos peças de vários períodos históricos, desde o Paleolítico, Mesolítico, Neolítico e Idade do Cobre, Idade do ferro, Romano, Medieval… Para mostrar a evolução da Arqueologia no território que hoje chamamos Portugal”.
Esta é uma exposição com caráter didático, para as pessoas começarem a perceber que há uma evolução tecnológica. “Hoje em dia os nossos alunos têm telemóveis, iPads, iPhones…. E tudo é isso é fruto de uma evolução tecnológica, porque eu sou é do tempo do Vinil, por exemplo, e agora há além de CD e DVD Blu-Ray. Na Arqueologia é exatamente a mesma coisa: o Homem começou pela pedra, que era a tecnologia que tinha mais duradoura, e depois foi conquistando novas tecnologias com o domínio dos metais e por aí fora”. Esta exposição didática vai começar a percorrer as escolas que mostrem interesse entre finais de abril e inícios de maio, no sentido de aproximar a Arqueologia das escolas. “O outro objetivo é incentivar os alunos a virem visitar o museu. No fundo a exposição é um rebuçado: aqui têm estas peças, mas se quiserem mais, venham visitar o MNA”, explicou Mário Antas.
Museu Nacional de Arqueologia
Praça do Império
1400 – 206 LISBOA
Telefone: 21 362 00 00
E-mail: info@mnarqueologia-ipmuseus.pt
Site
Não te esqueças que aos domingos e feriados, das 10h às 14h a entrada é gratuita! Noutros dias, têm desconto os portadores de Cartão Jovem e os filhos que visitem o MNA em família… E podes sempre terminar o dia de forma doce nos conhecidos Pastéis de Belém.
O visionário
Sabias que o fundador do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) foi José Leite Vasconcelos? Sendo médico de formação, este senhor teve a sensibilidade extraordinária de começar a colecionar peças para guardar e fazer um grande museu. É por isso que o nome oficial do MNA, fundado em 1893, é Museu Nacional de Arqueologia do Dr. Leite de Vasconcelos. “Ele foi um visionário, no final do século XIX e início do século XX, que recolheu uma série de peças únicas de vários períodos históricos e conseguiu uma coleção notável e que foi ampliada pelos restantes diretores do Museu”, refere Mário Antas.
[Foto: Bruna Pereira]



