‘Uma aventura’ para todos os gostos

Começaram em 1982, com “Uma aventura na Cidade”, mas logo as peripécias gémeas Teresa e Luísa e do seu inseparável Caracol, de Chico, Pedro, João e também do seu cão Faial se mudaram para cenários tão distintos como o bosque, a Serra da Estrela, o supermercado, o estádio, a televisão, o alto-mar ou a Amazónia. 30 anos depois do primeiro livro, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada continuam com uma imaginação muito fértil – encontrando-se já em visitas pelos Castelos de Portugal para decidir qual o local onde se centrará o enredo do próximo título da coleção: “Uma aventura no Castelo dos Três Tesouros”.

 

 

Como é que nasceu esta dupla Ana Maria Magalhães/Isabel Alçada?

Isabel Alçada (IA): Conhecemo-nos como professoras e imediatamente houve uma grande sintonia entre as duas – sintonia essa que, no fundo, também radicou do facto de nós as duas termos já muita sintonia com os próprios alunos: preparámos muitas vezes aulas em conjunto e ocorreu-nos escrever livros em conjunto, exatamente com a ideia de promover a leitura. A nossa intenção era que todos os alunos tivessem experiência de leitura, pois sentíamos que havia uma necessidade de livros para conseguir entusiasmá-los. Foi nessa base que radicou o nosso interesse pela escrita e foi a partir daí que começámos a pensar no que é que poderia interessar mais aos alunos que tínhamos nessa altura.

Ana Maria Magalhães (AMM): Todo o trabalho conjunto foi facilitado por circunstâncias que são uma espécie de acaso: somos ambas irmãs mais velhas; sempre brincámos com os mais pequeninos e contávamos histórias; pertencemos ambas a famílias muito numerosas que davam muita atenção às crianças e onde havia muitos contadores de histórias; tivemos uma juventude bastante semelhantes – na altura em que nos conhecemos, estavam na moda os livros de aventuras e, quando levávamos os filhos às vacinas, levávamos também papel e caneta… Houve muita coisa que nos facilitou este trabalho em conjunto. Também dizemos, na brincadeira, que nascemos ambas na primavera e que, por isso, gostamos de fazer coisas, pois esse é um tempo de começo e recomeço…

Nunca se chatearam a meio dum dos tantos livros que escreveram em conjunto?

AMM: Há parcerias em que uma pessoa escreve um capítulo e depois outra escreve outro, mas nós fazemos assim: vamos aos locais juntas, fazemos uma pesquisa juntas e depois escrevemos juntas – eu aqui onde estou sentada e ela ali (apontando a cadeira da sala). Escrevemos conversando. Uma diz uma frase, outra diz outra… Mas tendo sempre por base o respeito. Se a Isabel disser uma ideia da qual eu não goste nada, podemos dizer, mas com delicadeza, porque se uma de nós não gosta, metade dos leitores também não vai gostar.

IA: Além duma grande sintonia, também temos as duas muito gosto por aquilo que ainda não pensamos – quando a Ana diz alguma coisa que é para mim uma surpresa, a minha reação imediata é acolher e a dela é igual. Aliás, um bom professor é assim: não está centrado em si próprio para poder comunicar bem… E aceitar que os alunos são diferentes e quando trazem ideias novas encorajar e levá-los a ir mais longe com as suas ideias. Isso para nós é muito estimulante e como somos duas temos muitas ideias, isso é verdade.

AMM: Outra coisa muito importante numa parceria é que não pode haver competição interna: se a Isabel der uma ideia melhor do que a minha, eu só posso é ficar contente… Não vou dizer “ó que chatice, ela teve uma ideia melhor do que a minha”…

aventura na cidade

O primeiro livro da coleção, “Uma aventura na cidade”, lançado em 1982.

No fim de 53 livros “Uma aventura” publicados, há ainda imaginação para mais aventuras noutros sítios e países?

AMM: Há pessoas que têm muitas ideias e em catadupa, mas isto acontece em qualquer área… E no nosso caso nunca faltou imaginação (risos). Vou a guiar, paro num semáforo e tenho uma ideia ótima e telefono depois à Isabel a dizer “Olha, a ver se não te esqueces, não me vá eu esquecer”. Às vezes é meia da noite e, para não incomodar o meu marido, ponho ali uma luzinha e um lápis e tomo nota. Com a Isabel é o mesmo…. E depois juntas fazemos brainstorm.

IA: O tema também ajuda a fomentar a imaginação: é diferente escrever “Uma aventura na Amazónia” ou “Uma aventura no supermercado”… A visita ao local, a pesquisa, a recolha de informação e a observação direta trazem, por associação, imaginação. No local, ao observarmos uma coisa que achamos engraçada, começámos logo a conversar e a imaginar coisas que se poderiam passar ali. Entre a pesquisa e a invenção, os limites para nós não são estanques e o processo é interativo.

Isabel e Ana Maria

Ana Maria Magalhães acolheu-nos em sua casa para uma entrevista cheia de boa disposição.

Há momentos de interação com os leitores que possam partilhar, por terem sido os mais marcantes ao longo destes anos todos?

IA: Quando vamos a escolas, uma das coisas que nos toca muito é o facto de muitos professores terem sido nossos leitores, pois são capazes de compreender melhor o que os alunos sentem ao ler os nossos livros na aula, porque eles próprios já passaram pela mesma experiência. Há uma cumplicidade natural com as pessoas que leram os nossos livros…

AMM: Aconteceu uma coisa engraçada com um leitor no livro “Uma aventura da Serra da Estrela”, em que as nossas personagens caem dentro dum poço e depois chegam uns escuteiros que ouvem gritar e perguntam: “Quantas pessoas estão aí dentro?”… E um leitor escreveu-nos a dizer que, quando as personagens disseram “Somos 5”, ele estava à espera que dissessem: “Somos 6”, porque ele também lá estava. Na Feira do Livro de Lisboa aconteceu outra coisa engraçada: apareceu-nos um casal – ela tinha 34 aventuras e ele tinha aí umas 35, mas eram os mesmos e então eles não sabiam o que iam fazer porque nenhum deles queria deitar fora os livros, mas a casa não tinha espaço para todos… Tudo isto traz muita ternura.

IA: Logo que começámos a escrever, um miúdo chegou ao pé de mim e disse: “sabe, eu gosto muito de ler… Só tenho um livro. Mas já o li quatro vezes”. Era um livro “Uma aventura” e, nessa altura, até falei com os professores, pois não havia as bibliotecas que há hoje…. Mas aquilo foi duma simplicidade tal… Ele nunca tinha dito aquilo a ninguém. Foi qualquer coisa de inesquecível.

AMM: Também houve casos (que não podem ser alimentados, claro está…) em que alunos fugiram das aulas para se esconderem a ler os nossos livros…

IA: Outra coisa deliciosa é entrar no metropolitano e ver que alguns leitores vão a ler os nossos livros, não reparam quem se sentou ao pé deles, e vão a rir satisfeitos….E uma vez numa escola estavam dois alunos a ler o mesmo livro e um dizia “olha esta!” e o outro dizia “e olha aquela”, em voz alta, e uma pessoa pensa: “é isto mesmo que nós queríamos”.

Há algum livro da coleção que tenham como preferido?

AMM: Eu gosto de todos por igual, tendo uma pequena preferência pelo livro dois, “Uma aventura nas Férias de Natal”, porque é autobiográfico. A história passa-se na quinta dos meus avós e muitas das peripécias e personagens aludem a pessoas que fizeram parte da minha infância e isso gera um carinho especial. Mas gosto de todos os outros… Aliás, um pai se tiver 10 filhos gosta dos 10 por igual, acho eu… Se um escritor não gosta dos seus livros, então ninguém vai gostar…

IA: Eu gosto muito de “Uma aventura no bosque”, porque foi o primeiro que escrevemos em Sintra, onde eu ia sempre nas férias grandes. Eram os locais onde vivi muitas peripécias.

Querem deixar alguma mensagem aos leitores da Mais Educativa?

IA: Há sempre um livro à espera dum leitor e há sempre livros para todos os gostos: há livros de histórias, com muita peripécia, de ação, que nos dizem alguma coisa, que nos ajudam a nos compreendermos a nós mesmos muito melhor, há livros que têm informação muito interessante, que nos fazem estimular a nossa imaginação e que nos ajudam a passar o tempo duma forma mais positiva. As bibliotecas estão cheias de livros, por isso não deixem de procurar porque vão de certeza encontrar um livro que vos agrade.

AMM: Eu faço minhas as palavras da Isabel.

Recente

Este é o mais recente livro da coleção, “Uma aventura no sítio errado”, lançado no início de 2012.

“Uma aventura no Castelo dos Três Tesouros” chega em 2013
“Estamos agora a fazer a pesquisa dos castelos, junto da Associação dos Amigos dos Castelos. Como estamos em plena fase de pesquisa dos locais, temos aqui as ideias dentro duma pastinha, mas claro que ao visitar um castelo pode surgir uma nova ideia, porque cada castelo tem as suas especificidades e a ideia pode ser até a mesma, mas adaptada…”, refere Ana Maria Magalhães, sublinhando que “uma folha em branco é um ótimo meio de transporte para um mundo alternativo, onde será tudo como nós queremos, onde os maus serão castigados, os bons serão recompensados, onde há momentos divertidos e, no fim, tudo acaba bem”.

Eles não “Falham uma aventura”

JoaoeFaial
João e Faial: O João é o mais novo do grupo e também o mais pequeno. Mora com a avó, porque os pais, naturais de Rates (Póvoa de Varzim), estão a trabalhar na Alemanha. Visto que é um amante dos animais, tem um enorme pastor alemão chamado Faial, que faz questão de ser feroz quando é preciso, mas também é muito obediente e amigo de todos os membros do grupo.
Pedro
Pedro: É um excelente aluno na escola (tem média de 5) e o mais inteligente do grupo. Além disso, adora ler e ajudar os colegas… Embora no início costumasse andar à pancada com o Chico na escola. Mora com os pais e com uma irmã mais velha, que estuda Medicina.
Chico
Chico: Adora praticar desporto e não aguenta ficar parado muito tempo – sendo que isso, muitas vezes, significa meter-se em confusões. É, portanto, o mais corajoso e destemido do grupo. Tem um irmão mais velho.
Gemeas Teresa e LuisaTeresa, Luísa e Caracol: As gémeas Teresa e Luísa parecem iguaizinhas, mas têm uma diferença que, até hoje, poucas pessoas conseguiram descobrir. Moram com os pais num apartamento e têm um caniche branco ao qual batizaram de Caracol, por causa do seu pelo encaracolado.

 

 

Entra em www.uma-aventura.pt, conhece a biografia das autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada e também do ilustrador da coleção Arlindo Fagundes, e viaja pela aventura que mais te agradar, através das sinopses e das fichas de leitura disponíveis no site!

[Texto: Bruna Pereira | Caminho]

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