100 escolas aLer+

0
1117

No Agrupamento de Escolas de Moure há bibliotecas itinerantes que cabem num trolley de viagem e farmácias que receitam livros. Não acreditas? E se te dissermos que na Escola Secundária Leal da Câmara o livro “Breve história de quase tudo”, de Bill Bryson, serviu de mote aos alunos para fazerem dramatizações científicas? Se ainda estás de boca aberta, contamos-te que o professor André Ferreira, do Agrupamento de Escolas Gil Vicente, resolveu ensinar a matéria de 7º ano sobre rochas e fósseis recorrendo à calçada portuguesa… Tal como o bacalhau, há mil e uma formas de cozinhar os hábitos de leitura em ambiente escolar.

Isto é o que fazem três das agora 100 escolas aLer+, um projeto lançado em conjunto pelo Plano Nacional de Leitura (PNL), a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) e a Direção Geral do Livro e das Bibliotecas, corria o ano de 2008. Volvidos quatro anos, o aniversário celebrou-se na Escola Secundária Eça de Queirós, onde decorreu o IV Encontro de Escolas aLer +, para agrado da diretora do agrupamento de escolas, Maria José Soares, muito satisfeita por ser anfitriã de mais uma reflexão sobre o tema da leitura.

Também Fernando Pinto do Amaral, Comissário do PNL, se mostrou orgulhoso por ver um auditório cheio de professores empenhados em pôr as escolas e os agrupamentos onde trabalham a ler mais e a ler mais por prazer, “num trabalho que é, muitas vezes, voluntário e que está muito para além da docência”, referiu o Comissário, sublinhando a importância da interdisciplinaridade da leitura promovida em contexto de sala de aula, até porque “um professor nunca é só bom professor numa coisa”.

Painel Abertura
O painel de abertura contou com a presença de Fernando Pinto do Amaral (Comissário do PNL), Ana Soares (em representação da Secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário), Maria Josão Soares (Diretora da Escola Secundária Eça de Queirós), Teresa Calçada (Coordenadora da RBE) e Filomena Cravo (PNL).

O estranho incómodo da leitura

Ana Soares sublinhou que o prazer da leitura nasce como uma espécie de incómodo, já que enquanto criança, “o ser humano sente uma vontade quase incontrolável de querer aprender e de querer conhecer o que significam os códigos escritos que os adultos já dominam. À medida que crescemos, esse incómodo nunca é aniquilado… E as bibliotecas, os professores e todas as pessoas que diariamente estimulam a leitura têm essa responsabilidade e essa alegria de responder ao tal incómodo”.

Aludindo ao livro “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, a representante da Secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário acrescentou que “um livro é um lugar que nos leva a outros lugares” e que é muito gratificante assistir a encontros como este, que demonstra, além duma coesão da equipa, uma certeza: “o gosto pela leitura está difundido de norte a sul do país”.

Carlos Fiolhais
Carlos Fiolhais deixou os presentes deslumbrados com a sua palestra.

Fascinados com Carlos Fiolhais

Professor de Física na Universidade de Coimbra (UC), cientista ímpar, orador notável, fundador do blogue “De Rerum Natura” e antigo Diretor da Biblioteca Geral de Coimbra – a belíssima Biblioteca Joanina… Podíamos continuar os elogios, mas todos ficam muito aquém da palestra que os presentes tiveram oportunidade de assistir. Carlos Fiolhais aliou o dom da palavra aos conhecimentos científicos e à paixão arrebatadora que tem pelos livros – a sua maior extravagância, confessou, nada envergonhado. “O primeiro dinheiro que ganhei num concurso escolar foi para comprar um livro. Como tenho uma grande biblioteca espalhada por vários locais, acontece-me outra coisa curiosa que é comprar livros que já tenho”, disse, rindo e fazendo rir os restantes.

Lembrando que a carreira de Físico a escolheu devido aos livros, a quem mais deve “depois dos pais e dos professores”, Carlos Fiolhais tem a certeza de que quando se encontrar com São Pedro, a sua função de guardador de livros, “bons livros”, frisa, vai contar muito para o currículo terreno. A assistência riu generosamente, mais uma vez, e ouviu mais sobre a apresentação que versou sobre “Os livros e as bibliotecas – do papel ao digital”, desta feita com a ajuda de excertos do livro “Cosmos”, de Carl Sagan. “Este é um daqueles livros que devia estar nas prateleiras de todas as bibliotecas escolares”, referiu ao público, ao mesmo tempo que partilhou com os presentes um excerto do capítulo “A persistência da memória”, que culminou com a frase arrepiante de que “um livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia”  – tendo em conta que além de funcionar como um prolongamento dos nossos genes e do conhecimento que está alojado no nosso cérebro, conseguindo guardar prodigiosamente informação fora do nosso corpo, o livro e as bibliotecas conseguem perdurar à morte humana, deixando-nos o legados de artistas, cientistas, filósofos e poetas que morreram há milhões de anos. E que pode ser isto mais do que magia? O silêncio que se gerou, subitamente, não respondeu.

Os físicos também têm o seu quê de mágicos, acrescentou, porque atualmente ajudaram a que seja possível trazer a biblioteca no bolso. E se, na Antiguidade, assistimos à grande Biblioteca de Alexandria, com a revolução na Imprensa – graças aos carateres móveis de Gutemberg e à revolução informática que tornou o www rotina diária de navegação… Podemos concluir, continuou Carlos Fiolhais, que “a Internet serve para muito mais do que namorar e estar no facebook,  já que também dá para ler livros”.

Partilhando com o público que já agarrou no mesmo livro que Camões, referindo-se à rara edição de “Os Lusíadas” existente na Biblioteca Joanina, Carlos fiolhais deixou indicação à assistência de que poder aceder a património literário raro e único na Europa e no mundo é possível, através do endereço Alma Mater da Biblioteca Digital de Fundo Antigo, que contém versões online de preciosidades que comprovam, quer analogicamente ou em formato digital, que os livros vão continuar a existir e valem muito a pena ser lidos.

Balanço Anual
O balanço do Projeto aLer+ não podia ser mais positivo, sendo que cada nova escola que se junto à comunidade é uma autêntica vitória.

2012/13 com balanço positivo

Envolver não só os alunos, mas também os pais e os funcionários na leitura. É isso que buscam as escolas aLer +, projeto nascido com 33 escolas iniciais e que, passados quatro anos, conta com um redondo número 100 de escolas empenhadas em disseminar a leitura e os seus benefícios pelas comunidades escolares e locais. “Em linhas gerais, os objetivos a que nos propusemos foram cumpridos, sendo que encontros como este são muito úteis para as novas escolas que hoje se incorporam à família fiquem a par das iniciativas que as escolas mais antigas desenvolvem”, apontou Filomena Cravo, salientando que este comportamento da leitura é tão transversal que existe já uma boa percentagem de escolas que desenvolve planos conjuntos com Bibliotecas Municipais, por exemplo, resultando esta sinergia muito bem. Satisfeita com todo o trabalho desenvolvido ano após ano pelas escolas, Filomena Cravo sublinhou o papel difusor da leitura na formação do aluno e no que a médio e longo prazo será a formação de toda uma sociedade e até humanidade, até porque, terminou, e como escreveu Umberto Eco, “O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê”.

Convivio
No final do almoço, houve tempo para ver e rever projetos de várias escolas da mesma família aLer+.

Calçada portuguesa vai à escola

Um dos painéis mais aguardados do dia foi o que deu conta dos projetos de escolas, inaugurado com o belíssimo conto sobre “uma velha muito velha, muito feia e muito má”, excerto retirado do livro de Maria Alberta Menéres “Uma Palmada na Testa”.  Coube a palavra ao Agrupamento de Escolas Gil Vicente, que abriu os trabalhos dando conta da importância da leitura numa comunidade onde o poder de compra é baixo, o que aumenta a importância da leitura para acrescento dos níveis de literacia entre a população. Entre os mais novos são fundamentais, por isso mesmo, atividades diretamente ligadas à leitura, tais como percursos literários, Pedy-papers, concursos, sessões com contadores de histórias e encontros de leitura de pais para filhos nas salas de aula – que “este ano letivo recentemente terminado levou à escola 26 encarregados de educação”, revelou, contente com o feito, a Professora Bibliotecária Maria João Queiroga.

E o que fazer com os alunos que fazem má cara à leitura, assumindo-se zangados com os livros?  O Projeto Leitura Furiosa trata do assunto, explica Maria João: “este projeto é um momento único que permite a um não-leitor aproximar-se dos escritores e da escrita e conviver com eles. Há sessões de leitura feita por atores, música, sessões de ilustração de textos, visitas a bibliotecas… Este ano, o encontro aconteceu de 11 a 13 de maio de 2012, na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio”.

Também o professor André Ferreira partilhou a ideia original de adaptar, juntamente com a também professora Margarida Almeida, os conteúdos programáticos de Ciências Naturais do 7º ano ao projeto “Calçada portuguesa – Tapete de Pedra no Mundo”, que culminou com uma exposição na Biblioteca da Escola Gil Vicente. “Explorámos tanto a natureza das rochas, os instrumentos utilizados pelos calceteiros, os desenhos que antecedem os moldes e o significado do simbolismo na arte de calcetar – incluindo ainda os contributos do poeta e fotógrafo Ernesto Matos e da ceramista Helena Almeida – para abordar este pedaço de cultura tão português”, referiu o docente.

Painel Professores
As práticas desenvolvidas no Agrupamento de Escolas de Moure, no Agrupamento de Escolas Gil Vicente e na Escola Secundária Leal da Câmara mereceram muita admiração e várias salvas de palmas.

“Vou à farmácia buscar livros!”

Chegada a vez de Filomena Alves, Professora Bibliotecária no Agrupamento de Escolas de Moure, a plateia foi presenteada com um excerto do livro “O velho que lia romances de amor”, de Luís Sepúlveda, sobre a importância de sentir o chamamento da leitura e assim viver novas vidas pelas palavras de estranhos, muitas vezes mortos. Desde os folhetos entregues nas reuniões de início de ano letivo que dão conta dos benefícios da leitura, as atividades existentes na Biblioteca Escolar e “Sete excelentes razões para ler com as crianças e os jovens”, os olhos da assistência brilharam como se fôssemos todos crianças de cinco anos em noite de Natal à espera da meia-noite, com a apresentação do projeto das Bibliotecas Itinerantes, que circulam em quatro rodas pelas redondezas – não de carro nem autocarro, mas antes (admirem-se) de trolley de viagem. “Não tem nada que saber, são simples malas de viagem, que podem ser compradas até nos chineses, e que enchemos de livros de diferentes géneros e para diferentes idades”, explicou Filomena Alves, mencionando que os livros viajam sempre com uma folha de registo dos empréstimos domiciliários aos alunos.

Trolleys Livros
Livros sobre rodas que não deixam nenhum aluno indiferente.

Já sob a sigla LLD, ou seja “Leva-me, lê-me e devolve-me”, a professora falou de mais uma iniciativa que arrebata leitores minhotos: a colocação estratégica de livros em  pastelarias e até em farmácias – na Farmácia Costa Macedo, na Laje, em Vila Verde, há uma receita farmacêutica para cada livro, onde são mencionados os efeitos secundários, a dose e até a posologia da leitura escolhida. “O sucesso foi tanto, que temos utentes a irem aviar os medicamentos mais cedo porque já acabaram de ler o livro que levaram da última vez que foram à farmácia”, conta Filomena, muito orgulhosa do projeto que coordena, e acrescentando que o leque de títulos literários tanto inclui José Saramago como Fátima Lopes – “é tudo literatura”, responde a Professora Bibliotecária, lembrando os baixos níveis de escolaridade ainda existentes na região a que tem de atender.

Livros farmácia
Na Farmácia Costa Macedo há utentes que aparecem mais cedo para aviar receitas, desejosos por levar outro livro para casa.

E porque “Um minuto de poesia” já é uma boa dose diária desta poção desenvolvida tão bem pelos poetas portugueses, ficámos também a conhecer outra iniciativa do Agrupamento de Escolas de Moure: fichas onde estão incluídos trechos de poesia que rondam o minuto de duração quando lidos e a biografia dos respetivos autores, junto à estante dos Livros de Ponto. “Assim, quando o professor vai dar a aula, é livre de tirar uma das fichas, divididas por cores, conforme as áreas temáticas, e ler antes de começar a matéria”, resumiu Filomena Alves.

Plateia
Para os Professores Bibliotecários e para os demais docentes e profissionais ligados aos livros e à leitura presentes, a partilha de experiências foi um dos momentos mais marcantes do IV Encontro das Escolas aLer+.

Um livro, vários projetos, muitas ideias

A Escola Secundária Leal da Câmara foi a última a partilhar o seu testemunho e fez questão de levar algumas porta-vozes muito especiais, além da Professora Bibliotecária Liliana Silva: as alunas do 11º ano Ana Magalhães, Ana Mendes, Vânia Veloso e Maria Máximo. Ninguém melhor do que estas alunas para contar na primeira pessoa o que a leitura do livro “Breve história de quase tudo”, de Bill Bryson, foi capaz de despoletar – desde dramatizações científicas sobre fenómenos físicos e químicos descritos no livro a vídeos de sensibilização sobre a importância do recurso da água, foi notória a emoção causada nos presentes com o trabalho apresentado por estas alunas. “Juntando valências que foram mais além da Física/Química e da Biologia/ Geologia, um único livro uniu duas turmas e ajudou a explorar uma parte criativa de nós que nem sabíamos que existia”, garantiram as estudantes.

Peixes

Mas outras incursões inovadoras pela missão de espalhar os hábitos de leitura se fomentam nesta escola que cumpre agora 25 anos de idade, sublinha Liliana Silva, dando conta duma iniciativa transversal que aproveitou “O Sermão do Padre António Vieira aos peixes” para falar de Biologia marinha e explorar as espécies descritas no livro. Após um vídeo promocional realizado pelos próprios alunos da escola, descobrimos também que a Biblioteca Escolar é um lugar onde, tal e qual uma receita, cada um faz as mesclas que bem entender para conseguir o sabor ideal do que quer saber. “Um dia fui arrumar os livros deixados por uma professora que estava a lecionar “Os Maias” e reparei que, para a mesma matéria, ela estava a ler livros de Literatura, livros de História e até livros de Arte sobre o Impressionismo… Isto é apenas um exemplo, mas serve para documentar esta capacidade de entrelaçar conhecimentos de diferentes áreas”.

Finalizado o IV Encontro de Escolas (agora 100) aLer+, resta lembrar que, nos próximos 22 e 23 de outubro, acontece a III Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura (PNL), na Fundação Calouste Gulbenkian.

[Foto: Bruna Pereira]

Deixe um comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here